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Roberto Acioli de Oliveira

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21 de out de 2008

Buñuel Nazarin




“A realidade
,
sem imaginação
,
é a metade da
realidade”


Luis Buñuel



Carlos Saura, o cineasta espanhol, afirmou que na Espanha existem três coisas muito importantes: a Igreja, o sexo e o exército (1). Outro cineasta espanhol, o surrealista Luis Buñuel, é muito lembrado por uma frase que ficou famosa: “eu sou ateu, graças a Deus”. Sim, ele era ateu, mas isso não quer dizer que não tivesse certo fascínio pelos mistérios da fé ou, pelo menos, pela Virgem Maria. Não é difícil encontrar, desde Um Cão Andaluz (Un Chien Andalou, 1929), em parceria com Salvador Dali, muitas referências à religião Católica. Na maioria das vezes, é verdade, referências negativas. (imagem acima, monges bebem cerveja, fumam e jogam pôquer em O Fantasma da Liberdade; Ao lado, a beata de Viridiana. Ela pretende ser pura como a noiva de Cristo e acredita que com oração e trabalho conseguirá salvar os mendigos da região)

Entre a Fé e a Igreja


“Não me interessam
os personagens sem
aspectos contraditórios
,
porque então sabemos
tudo sobre eles des
de o
primeiro momento”


Luis Buñuel


Quem não se lembra das caveiras de arcebispos (imagem acima, à esquerda), ou do marquês (uma referência aos nobres espanhóis) vestido de Jesus Cristo que sai de uma orgia no final de A Idade do Ouro (l’Âge d’Or, 1930) - em uma cena inspirada em texto do marquês De Sade. Ou ainda, de Viridiana (Viridiana, 1961), uma beata que deseja ser a noiva de Cristo, mas acaba rendida pelos desejos sexuais. Inesquecível neste filme é a seqüência em que os mendigos, que Viridiana achava que através de orações e trabalho seguiriam o caminho do Bem, invadem a casa onde mora e fazem um banquete e uma orgia. Em certo momento, Buñuel distribuiu os mendigos em uma grande mesa, recriando a imagem da Última Ceia de Cristo, famoso mural de Leonardo Da Vinci pintado no século 15. (imagem abaixo)

Em A Via Láctea, (La Via Láctea, 1969), dois vagabundos resolvem fazer a peregrinação a Santiago de Compostela. Pelo caminho escutam toda sorte de comentários religiosos e com seres sobrenaturais. O filme já foi comparado ao estudo de uma espécie de inseto: o homo christianus. Seus detalhes físicos, seu comportamento, as heresias, a transubstanciação, a origem do mal, a natureza dual de Cristo, o livre arbítrio, a trindade e o nascimento da Virgem. Buñuel, apesar de ateu, tinha interesse pelos mistérios da fé. Mas mostra que a Igreja sempre quis impô-los à força. (obedecer a Igreja = ter fé)


Qualquer personagem que expressasse uma idéia herética seria advertido pelas autoridades eclesiásticas que receberá um castigo caso não se submeta. O castigo apenas muda com os séculos (2). Em O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la Liberté, 1974), Buñuel ataca a hipocrisia da Igreja colocando um grupo de monges jogando pôquer. Talvez se referindo às contradições (embora a contradição estimule seu pensamento) entre a fé e a Igreja Católica enquanto instituição, Buñuel disse: “Posso blasfemar sobre o amor louco, caso isso me ocorra. É vivificante, às vezes, blasfemar contra aquilo em que se acredita”.

A Fé Verdadeira?


“Eu não gosto
dos donos da verdade
,
sejam quem forem
. Me aborrecem e me dão medo.
Eu sou anti-fanático (fanaticamente)”


Luis Buñuel
Mon D
ernier Soupir, p. 282




Em Simão do Deserto (Simon del Desierto, 1965), Buñuel mostra um homem que se isola no deserto para enfrentar as tentações do diabo. Rodeado por seus seguidores, Simão vive no topo de uma coluna durante 6 anos. Então um rico benfeitor lhe dá uma nova coluna, agora com 11 metros de altura. Lá de cima, ele faz milagres e enfrenta o diabo, que aparece com vários disfarces. O roteiro é baseado na história de San Simeón, anacoreta que viveu mais de 40 anos no alto de uma coluna no deserto da Síria durante a Idade Média. O texto lhe foi apresentado por Garcia Lorca, e ambos se divertiam muito ao ler que as fezes do santo escorriam pela coluna como a cera de uma vela. Na cena final, que não era bem como Buñuel desejava (3), Simão e o diabo aparecem em uma discoteca em Nova York.


Simão diz que vai voltar para casa, mas o diabo o informa que em sua coluna no deserto já existe outro habitante e que Simão deverá ficar ali até o fim dos tempos. Buñuel considerava Simão o único homem livre em todos os seus filmes. Muitos outros exemplos de personagens religiosos poderiam ser lembrados quando se fala da obra de Buñuel. A fase em que o cineasta viveu no México está cheia deles, Simão do Deserto foi o último. Um pouco antes, em 1958, Buñuel filma Nazarin. “Nazarin é um homem fora do comum, por quem sinto grande afeto”. Com essas palavras Buñuel define esse sacerdote que, da mesma forma como será Simão do Deserto depois dele, é a imagem de uma mistura de Cristo e Don Quixote. (ao lado, Cristo depois de uma orgia, em A Idade do Ouro)

Nazarin é um padre passando por uma crise de fé. Herói quixotesco que vive em um mundo só seu e acredita que tudo irá bem se fizer o bem. Mas todas as suas boas ações acabam mal. Todos estão em pior situação no final do filme. Nazarin se dedica aos pobres, cuida de prostitutas feridas em brigas e nem se importa quando delinqüentes lhe roubam os poucos pertences. Mas ele não poderia ter dado abrigo a uma prostituta e ela ateia fogo ao apartamento dele para que a polícia não tenha provas para incriminá-lo. Por conta do escândalo, proíbem-no de celebrar missas. Nazarin então se livra de suas vestes eclesiásticas e parte para uma vida de mendigo. Como já sabemos, suas tentativas de fazer o bem fracassam e seus únicos seguidores são duas mulheres, a prostituta que ajudou e Beatriz, amiga dela, uma histérica que foi abandonada pelo amante. Acaba descoberto e vai preso, lá chegando tem de ser defendido por um ladrão que impede que ele seja surrado por outro detento. O ladrão então desabafa para Nazarin: ”você está no bando do bem e eu no do mal. E nenhum dos dois serve para nada”.

Através de outra seqüência de Nazarin, Buñuel chama nossa atenção para uma outra questão: a idealização dos pobres. Em sua peregrinação, Nazarin, Andara e Beatriz encontram uma mulher moribunda. Ela está quase morta, mas deseja ardentemente a presença do marido. Nazarin, seguindo seus rituais cristãos, tenta fazê-la se arrepender de seus pecados e prestar contas a Deus. Mas a mulher não quer saber disso, quer seu marido. Quando o marido retorna, expulsa os três beatos a pedido de sua mulher. Nazarin não compreende como alguém pode ignorar a salvação eterna desta forma. Beatriz, que sofre com a ausência do amado, concorda com a mulher (4). Destrói-se assim um ideal de bondade, mostrando as pessoas reais (contraditórias) por baixo da casca dos estereótipos (identidades fixas). (imagens acima e abaixo, Nazarin)

Ateu Graças a Deus

"Já não creio
no progresso social.
Só posso acreditar em
alguns poucos indivíduos excepcionais de boa fé
,
ainda que fracassem
,
como Nazarin"

Luis Buñuel


O acaso, uma das forças do surrealismo, mostra para Nazarin que “ser bom” não faz do mundo um lugar melhor. Ele não compreende porque sua bondade não gera bondade. Portanto, tanto faz crer ou não crer. Foi nesse sentido que o ladrão que o defendeu na cela da prisão concluiu pela irrelevância, tanto de sua maldade quanto da bondade de Nazarin. Será esta conclusão que levou Buñuel a se dizer “ateu graças a Deus”? Seja como for, no mundo de Deus, acredita Buñuel, não há lugar para o acaso. Para Buñuel, o mundo é regido por um princípio de ambigüidade, não existem verdades redentoras, soluções definitivas, nada que impeça o crescimento da dúvida sobre aquilo que se tem como estabelecido (5). O real é contraditório e ambíguo.

Uma das imagens mais impressionantes do filme acontece quando Nazarin ainda está em seu apartamento. Andara, a prostituta, está convalescendo de seu ferimento quando olha para um pequeno quadro na parede onde está o rosto sofrido de Cristo com a coroa de espinhos. De repente, delirando, ela vê aquele rosto abrir uma grande gargalhada (imagem ao lado). Um Cristo alegre não faz bem o gênero da postura Católica. Talvez seja uma risada de escárnio de um Cristo que acusa (6). Cristo zombando do sofrimento de uma prostituta, uma Eva. Curiosamente, a Igreja Católica esteve a ponto de premiar o filme de Buñuel (7).



Podemos reunir as interpretações dadas à Nazarin em dois grupos. No primeiro, o filme seria profundamente cristão. No segundo, o filme mostra ilusão da divindade e a descoberta da realidade do homem. Buñuel discorda das duas interpretações. Para o cineasta, qualquer homem na mesma situação de Nazarin seria movido por impulsos contraditórios (8).

Notas:

1. RENTERO, Juan Carlos. Interview with Carlos Saura In WILLEN, Linda M. (ed.). Carlos Saura: Interviews. USA: University Press of Mississippi, 2003. P. 29.
2. KROHN, Bill; DUNCAN, Paul (ed.). Luis Buñuel. Filmografia Completa. Köln: Taschen, 2005. P. 154.
3. Idem, p. 145.
4. HOLANDA, Samuel. Nazarin, Um Devorador Ambíguo de Sistemas In CAÑIZAL, Eduardo Peñuela (org.) Um Jato na Contramão: Buñuel no México. São Paulo: Editora Perspectiva, 1993. Pp. 94-5.
5. Idem, Pp. 89 e 93.
6. Ibidem, p. 92.
7. KROHN, Bill; DUNCAN, Paul (ed.). Op. Cit., p. 112.
8. HOLANDA, Samuel. Op. Cit., p. 96.

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